
Inspirações Literárias
Uma série de pensamentos sobre como o que leio inspira minha escrita.
LITERATURA CLÁSSICA-MEDIEVAL
Luan Menezes Vieira Borges
3/16/20263 min read


No livro Vida-Nova Brasileira, entre um poema e outro, Ariano Suassuna fala sobre autores que inspiram sua criação. Na situação descrita no livro, ele cita o cordelista Lino Pedra Azul (que viria a inspirar também o personagem Lino Pedra Verde em O Romance da Pedra do Reino). Não apenas outros cordelistas inspiram a obra de Ariano Suassuna, mas também escritores clássicos, como Virgílio, também citado em seu livro, e escritores medievais.
Cito, constantemente, como fontes importantes para a minha obra literária Nelson Rodrigues, de quem a leitura se tornou o pontapé inicial para a minha poesia, e também Álvares de Azevedo, que a partir de sua obra comecei a elaborar um personagem épico-trágico que se tornaria o Trovador das Gerais. Além desses, no entanto, figura-se entre minhas principais influências o próprio Ariano Suassuna, Guimarães Rosa, Leandro Gomes de Barros e alguns poetas medievais, como Martin Codax, Dom Dinis e Pero Meogo.
Só que para escrever é necessário se deixar inspirar e reinspirar sempre.
Este já tive minha cota de inspirações para futuros escritos. Edgar Allan Poe, por exemplo, é um que estou constantemente relendo em busca temas para uma obra de terror que ainda pretendo escrever. Na última postagem deste blog falei sobre o Shahnameh, uma história medieval que deixou marcas e que pretendo usá-la conscientemente na minha literatura. E agora, no momento que escrevo este texto, terminei de ler Erec e Enide, de Chrétien de Troyes, traduzido por Christian Carnsen.
A primeira vez que li essa história, eu ainda cursava Letras na UFMG. Encontrei o livro em espanhol na biblioteca da Faculdade de Ciências Econômicas. Foi o primeiro livro que li do importante poeta medieval francês.
Erec e Enide é um romance de cavalaria que conta como que o amor pode desestabilizar um cavaleiro. Erec, sendo um dos grandes nomes da cavalaria de Rei Artur, encontra Enide ao tentar vingar uma desfeita que sofreu. Ele fica encantado pela donzela e resolve defender sua beleza em um torneio. Erec acaba se casando com ela e passa a viver uma vida sossegada, longe de aventuras, dedicando seu tempo integralmente a amá-la. Com isso, vêm as más-línguas falar que ele se acovardou. Enide escuta esses boatos e, um dia, acaba chorando enquanto Erec dorme. Erec acorda com o choro de sua amada e, quando ela conta o que aconteceu, Erec parte em aventura, levando Enide ao seu lado, para provar que não é covarde e para provar o amor de Enide por ele.
Existem várias passagens no texto que inspiram a criação de novas aventuras, mas particularmente fiquei tocado com a última aventura que ele se presta a empreender, A Alegria da Corte, que é sobre um jardim mágico e um cavaleiro que nunca perdeu uma só batalha. Não vou me estender aqui, para não estragar a história a quem quer que sinta vontade de ler.
Erec e Enide foi disruptivo em sua época. Hoje histórias de amor com finais felizes são o que há de mais comuns, principalmente nas telas de cinema. Na literatura medieval, entretanto, isso não era muito comum: casamento era puro negócio e as histórias de amor só eram possíveis no adultério e, por isso, fadadas ao fracasso. Essa era a base do Amor Cortês, que regeu as cantigas ibéricas. Essa é a base dos triângulos Rei Marc-Isolda-Tristão e Rei Artur-Guinevere-Lancelote. O amor do marido não é correspondido pela mulher, que vive um romance adúltero com o vassalo.
A situação é diferente em Erec e Enide. Os dois se amam e são felizes juntos. Na visão medieval, se esse amor está dando certo, algo tem de ser sacrificado: e no caso é a cavalaria de Erec. Quando Enide se deixa levar pelas más-línguas e se entristece com a fama decadente de seu marido, resta a Erec colocar a prova o amor de Enide e colocar a si mesmo à prova: mostrando que seu amor bem sucedido não diminuía sua cavalaria.
Pretendo usar isso de alguma forma com os meus personagens e adaptar um pouco dessa história com o Trovador das Gerais e Dasflamas. E, certamente, a passagem da Alegria da Corte estará lá de alguma forma. Afinal, escrever é isso: se deslumbrar com a escrita de outros e tentar dialogar com as nossas inspirações. Fiz isso em alguns cordéis meus ainda não publicados. E espero que essa futura história do trovador seja publicada um dia.
Enquanto isso não acontece, você pode ler as desaventuras do trovador no reino da boemia no meu livro O Romance do Trovador das Gerais com a Donzela das Flamas de Íris, disponível na Amazon.
Já essa bela história do Chrétien de Troyes, está disponível também na Amazon, em formato de ebook ou em formato físico na coletânea As Crônicas Ancestrais do Rei Arthur - Tomo II


