Príncipe da Pérsia: As Areias do Tempo

O roteiro original

CINEMA EM LIVROS

Luan Menezes Vieira Borges

3/2/20264 min read

Para quem não sabe eu sou fã de vídeo games e, ainda mais fã, da franquia Prince of Persia, criada pelo artista Jordan Mechner. Desde o lançamento do primeiro jogo, em 1989, muitas sequências foram lançadas, além de um gibi (ou graphic novel como chama) e um filme lançado pela Disney em 2010, que por sua vez abriu leque de conteúdos derivados, como mais gibis e livros infanto-juvenis. Esse filme fez certo sucesso, muito além do que outras adaptações de jogos fizeram antes, porém muito aquém do esperado pela Disney.

O que pouca gente sabe é que o roteirista original do filme foi o próprio Jordan Mechner. No entanto, seu roteiro passou por diversas modificações, feitas pelos roteiristas Boaz Yakin, Doug Miro e Carlo Bernard até chegar ao filme pronto. O grande lance, mais legal de tudo, é que o roteiro original do Jordan Mechner está disponível de graça (em inglês) em seu site oficial. Eu li esse roteiro há muitos anos, ao ponto que me lembrava muito pouco dele, mas este ano eu resolvi lê-lo novamente.

E essas são as minhas impressões do roteiro em relação ao filme.

A princípio, vale notar que o fio condutor do roteiro original, bem como vários nomes, foram mantidos no filme. Essencialmente, o príncipe herdeiro Tus é enganado pelo seu próprio tio Nizam a atacar a cidade de Alamut. O real objetivo de Nizam é encontrar a Ampulheta do Tempo (ou Ampulheta dos Deuses, como é dito no filme) e para isso ele mata seu próprio irmão, o rei Shahraman, e coloca a culpa no filho mais novo: Dastan, que a partir daí procura limpar seu nome com a ajuda de Tamina, alta-sacerdotisa de Alamut e guardiã da Ampulheta.

Uma das grandes diferenças é que Dastan, no filme, é um filho adotivo do rei Shahraman, que resolve adotá-lo ao vê-lo agir de forma nobre nas ruas da cidade de Nasaf. Já no roteiro original, Dastan é o filho mais novo do rei, também favorito do rei, mas que deseja a todo custo provar-se digno em uma missão própria. Essa diferença é crucial, porque vai ditar como cada príncipe age e como o leitor/espectador percebe o príncipe.

No filme, nós, espectadores, começamos tendo uma simpatia por Dastan desde o começo do filme, quando o vemos salvar seu amigo. O personagem não precisa se esforçar para nos ganhar. Isso se reforça quando o vemos ser incriminado pela morte do pai. O objetivo de Dastan, aqui, é honrar a confiança que o rei depositou em si, agindo sempre de forma bastante nobre.

Já no roteiro, o personagem principal é um jovem orgulhoso (jovem mesmo, apenas 20 anos) que tem um completo desdém por tudo o que possui. O que é um caráter ambíguo, pois ao mesmo tempo em que ele se mostra mais próximo dos soldados mais pobres, ele não dá valor algum à riqueza que possui. Na primeira cena, já nos é mostrado ele apostando e perdendo seus bens. Várias vezes também, Dastan mostra-se machista, menosprezando Tamina, dizendo coisas como "é melhor para o homem permanecer longe da mulher", que mulher é traidora por natureza. O motivo pelo qual a princesa Tamina e ele não se dão bem, não é apenas pelo fato dele ter invadido Alamut e roubado a Adaga, mas também por causa da personalidade não muito agradável Dastan.

É lógico que, se me pedirem para escolher alguém para ser amigo, eu escolheria o Dastan do filme. Entretanto, eu acho o Dastan do roteiro é um personagem melhor. Isso porque ele de fato evolui como ser um humano. Apesar de ter uma personalidade duvidosa, é possível perceber uma verdadeira mudança em seu caráter no decorrer da história. Ele passa a respeitar Tamina como mulher, passa a valorizar sua posição, ainda se mantendo humilde perante os pobres. Sinceramente, eu não enxergo esse amadurecimento no Dastan do filme, isso porque ele já é maduro desde criança, em nenhum no filme eu vejo que o Dastan precisa melhorar em algo.

E é nisso que eu faço uma relação com o jogo Prince of Persia: The Sands of Time:

A grande maioria dos jogadores querem ver seus jogos adaptados ipsis-litteris ao cinema. Quando mais fiel melhor. Quantos fãs não ficaram extasiados quando, na série The Last of Us, a Ellie entrega um ramo para a girafa cover. Mas isso é, na grande maioria das vezes, é impossível graças à particularidade de cada mídia. E no caso dos filmes é ainda mais difícil, visto que nas séries, como a mencionada, existe tempo para gastar nos detalhes. Os filmes para cinema costumam ter entre 1h30 a 2h de duração.

Eu também como fã, gosto de ver no filme as referências aos jogos, mas não acho que seja necessário, desde que o filem capte o "espírito" do jogo. O roteiro original, capta esse espírito perfeitamente, exatamente porque na história do jogo, por mais diferente que seja do filme, nos é apresentado um príncipe arrogante e orgulhoso, ainda que simpático que perde tudo o que tinha e agora se vê obrigado a reparar os próprios erros. Seu relacionamento com a princesa Farah é evolui de desprezo e desconfiança para uma profunda paixão. Mais do que uma história mítica sobre areias que voltam no tempo, o jogo traz uma história sobre amadurecimento e sobre a dinâmica complexa entre o casal.

Se você lê em inglês e tem curiosidade de ler o roteiro original do filme, você pode encontrar no site oficial do Jordan Mechner, na guia Library, clicando aqui.